terça-feira, 20 de maio de 2008

A NECESSIDADE DE SER RECONHECIDO



A Necessidade de Ser Reconhecido

Porque isso que sinto de que preciso ter aprovação e ser reconhecido, especialmente no meu trabalho?


Precisa ser lembrado que a necessidade de ter aprovação e de ser reconhecido é problema de todo mundo. Toda nossa estrutura de vida é tal que somos ensinados que a menos que haja reconhecimento não somos ninguém, não temos valor. O trabalho não é importante, mas sim o reconhecimento. E isso está pondo as coisas de cabeça para baixo. O trabalho deve ser importante.. . uma alegria em si mesmo. Você deve trabalhar, não para ser reconhecido, mas porque você gosta de ser criativo; você ama seu trabalho porque gosta do que faz.

Poucas pessoas foram capazes de escapar da armadilha que a sociedade preparou para vocês, como Vicent Van Gogh. Ele continuou pintando – faminto, sem ter onde morar, sem roupas, sem remédios, doente, mas continuou pintando. Nenhuma pintura era vendida, não havia reconhecimento de lugar algum, porém o mais estranho era que nessas condições ele ainda estava feliz... Feliz porque ele era capaz de pintar o que ele queria. Com ou sem reconhecimento, seu trabalho é intrinsecamente valioso.

Na idade de trinta e três anos ele cometeu suicídio – não por causa de alguma miséria, de angústia, não, mas simplesmente porque ele havia pintado sua último quadro, sobre o qual ele esteve trabalhando por quase um ano, um pôr do sol. Ele tentou dúzias de vezes, mas não ficava a altura de seu padrão e ele o destruía. Finalmente ele conseguiu pintar o pôr do sol da maneira que desejava.

Ele suicidou-se, escrevendo uma carta para o irmão, “Não estou cometendo suicídio por desespero. Estou me suicidando porque agora não há mais sentido em viver; meu trabalho está feito. Além do mais, tem sido difícil achar meios de sobrevivência. Mas isso foi bom porque eu tinha algum trabalho para fazer, algum potencial em mim precisava se tornar real. Isso floresceu, agora não faz sentido viver como um mendigo.
Até agora eu ainda não tinha nem mesmo pensado nisso, não tinha olhado para isso. Mas isso é a única coisa que resta. Floresci até meu ápice; estou realizado, e agora prolongar, encontrar meios de sobreviver, parece estúpido. Para que? Portanto não é um suicídio por minha causa, apenas chequei a uma realização, uma parada total, e alegremente estou deixando o mundo. Alegremente vivi, alegremente estou deixando o mundo”.

Agora, quase um século depois, cada uma de suas pinturas vale milhões de dólares. Existem somente duzentos quadros disponíveis. Ele deve ter pintado milhares, mas estes foram destruídos; ninguém deu muita atenção a eles.

Atualmente, possuir um dos quadros de Van Gogh significa que você tem um senso estético. A pintura dele lhe dá um reconhecimento. O mundo nunca teve qualquer reconhecimento pelo trabalho dele, mas ele nunca se importou. E é assim que deve ser a maneira de olhar as coisas.

Você trabalha se você ama seu trabalho. Não espere por reconhecimento. Se isso acontecer, aceite-o tranquilamente; se não acontecer, nem pense sobre isso. Sua realização deve estar no próprio trabalho. E se todos aprendessem essa simples arte de amar seu trabalho, qualquer que seja, desfrutando- o sem pedir por qualquer reconhecimento, teríamos um mundo mais bonito e celebrativo. Como é agora, o mundo lhe apanhou numa armadilha de um padrão miserável: O que você está fazendo não é bom porque você o ama, porque você o faz perfeitamente, mas porque o mundo o reconhece, o recompensa, lhe dá medalhas de ouro, prêmios Nobel.

Eles retiraram todo o valor intrínseco da criatividade e destruíram milhões de pessoas – porque vocês não podem dar prêmios Nobel a milhões de pessoas. E vocês criaram o desejo por reconhecimento em todos, assim ninguém pode trabalhar pacificamente, silenciosamente, desfrutando do que quer que esteja fazendo. E a vida consiste de pequenas coisas. Para essas coisas pequenas não há recompensas, nem títulos dados pelos governos, nem diplomas honorários dados pelas universidades.

Um dos maiores poetas deste século, Rabindranath Tagore, viveu em Bengal, Índia. Ele publicou sua poesia, suas novelas, no idioma Bengali – mas não teve nenhum reconhecimento. Então ele traduziu um pequeno livro, Gitanjali, “Offering of Songs”, para o inglês. E ele sabia que o original tem uma beleza que a tradução não tem e nem pode ter – porque essas duas línguas, Bengali e Inglês, possuem estruturas diferentes, maneiras de expressão diferentes.

Bengali é muito doce. Mesmo se você luta, parece que você está engajado numa bela conversa. Ela é muito musical; cada palavra é musical. A língua inglesa não possui essa qualidade e não pode ser trazida para este idioma; porque possuem qualidades diferentes. Mas de alguma maneira ele conseguiu traduzir e a tradução – que é uma coisa pobre comparada com o original – recebeu o prêmio Nobel. Então subitamente toda a Índia tornou-se cônscia... O livro esteve disponível em Bengali, em várias línguas indianas, por anos e ninguém deu qualquer atenção a isso.

Toda universidade queria dar a ele o Doutorado em Literatura. Calcutá , onde ele vivia, foi a primeira universidade, obviamente, a oferecer um diploma honorário a ele. Ele recusou. Ele disse, “Vocês não estão dando um diploma para mim; vocês não estão dando reconhecimento ao meu trabalho, vocês estão reconhecendo o prêmio Nobel, porque o livro estava aqui de uma maneira mais bonita e ninguém se incomodou nem mesmo para escrever uma avaliação”.

Ele se recusou a aceitar qualquer Doutorado em Literatura. Ele disse, “Isso é um insulto para mim”. Jean-Paul Sartre, um dos grandes novelistas, e um homem de tremendos insights na psicologia humana, recusou o prêmio Nobel. Ele disse, “Fui bastante recompensado enquanto criando meu trabalho. Um prêmio Nobel não pode acrescentar coisa alguma a isso; pelo contrário, me puxa para baixo. Isso pode ser bom para os amadores que estão em busca de reconhecimento; estou bastante velho, e já desfrutei o suficiente. Eu amei tudo que fiz. Isso foi sua própria recompensa, e não quero qualquer outra recompensa porque nada pode ser melhor do que isso que já recebi”. E ele estava certo. Mas as pessoas certas são tão poucas no mundo, e o mundo está repleto de pessoas erradas vivendo em armadilhas.

Porque você deveria se incomodar com reconhecimento? Incomodar-se com reconhecimento só tem sentido se você não ama seu trabalho; então isso é significativo, desse modo parece substituir. Você odeia seu trabalho, você não gosta dele, porém você o está fazendo porque haverá reconhecimento; você será apreciado, aceito. Ao invés de pensar em reconhecimento, reconsidere seu trabalho. Você o ama?... Então isso é o fim. Se você não o ama, então mude-o!

Os pais, os professores estão sempre enfatizando que você deve ser reconhecido, você deve ser aceito. Essa é uma estratégia muito esperta para manter as pessoas sob controle.

Sempre me diziam na minha universidade, “Você devia parar de fazer essas coisas... você continua fazendo perguntas as quais você sabe perfeitamente bem que não podem ser respondidas, e que colocam o professor numa situação embaraçosa. Você precisa parar com isso; do contrário essas pessoas irão se vingar. Eles possuem poder; eles podem lhe reprovar”.

Eu disse, “Isso não me interessa. Agora mesmo estou gostando de fazer perguntas e fazendo eles se sentirem ignorantes. Eles não são bastante corajosos para simplesmente dizer, ‘Eu não sei’. Então não haveria nenhum embaraço. Mas eles querem fingir que sabem tudo. Estou gostando disso; minha inteligência está ficando afiada. Quem se importa com os exames? Eles só podem me reprovar quando apareço para os exames – quem vai aparecer? Se eles têm a idéia de que podem me reprovar, eu não vou fazer as provas e irei permanecer na mesma classe. Eles terão que me aprovar apenas pelo medo de que novamente por mais um ano eles terão que me enfrentar!”

E todos eles me aprovaram e me ajudaram a passar de ano, porque queriam se livrar de mim. Para eles eu estava destruindo os outros estudantes, porque outros estudantes começaram a questionar coisas as quais eram aceitas por séculos sem qualquer questionamento.

Enquanto eu estava ensinando na universidade, a mesma coisa surgiu de um ângulo diferente. Agora eu estava perguntando aos estudantes questões para lhes chamar atenção de que todo conhecimento que eles adquiriram era emprestado, e que eles não sabiam nada. Eu disse a eles que os seus diplomas não me interessam, mas somente suas autênticas experiências – e eles não possuem nenhuma. Eles estão simplesmente repetindo livros que estão desatualizados; há muito que estes se provaram errados. Agora as autoridades da universidade estavam me ameaçando, “Se você continuar assim, embaraçando os estudantes, você será mandado embora da universidade” .

Eu disse, “Isso é estranho – Eu era um estudante e não podia fazer perguntas aos professores; agora sou um professor e não posso fazer perguntas aos alunos! Assim qual é a função dessa universidade? Devia ser um lugar onde questões são perguntadas, onde buscas iniciam. Respostas precisam ser encontradas não nos livros, porém na vida e na existência”.
Eu disse, “Vocês podem me mandar embora da universidade, mas lembrem-se, esses mesmos alunos, por causa de quem vocês estão me despedindo, irão incendiar toda a universidade” . Eu disse ao vice-reitor, “Você devia vir e ver minha classe”.

Ele não podia acreditar: na minha classe havia pelo menos duzentos alunos... e não havia mais nenhum espaço. Desse modo eles se sentavam em qualquer lugar que encontravam – nas janelas, no chão. Ele disse, “Que está acontecendo, porque você tem somente dez alunos?”

Eu disse, “Essas pessoas vieram para escutar. Eles deixaram suas classes; eles gostam de estar aqui. Essa aula é um dialogo. Não sou superior a eles, e não posso recusar qualquer um que venha para minha classe. Se ele é meu aluno ou não, isso não importa; se ele vem para me ouvir, ele é meu aluno. Na verdade vocês deviam me ceder o auditório. Essas salas de aula são muito pequenas para mim”.
Ele disse, “Auditório? Você quer dizer toda a universidade reunida no auditório? Então o que farão os outros professores?”
Eu disse, “Eles que se preocupem com isso. Eles que vão e se enforquem! Eles já deviam ter feito isso há muito tempo. Vendo que seus alunos não vão mais ouvi-los era indicação suficiente”.

Os professores ficaram zangados, as autoridades estavam zangadas. Finalmente eles tiveram que me ceder o auditório... Muito relutantemente, porque os estudantes os forçaram. Mas eles disseram, “Isso é estranho, estudantes que não têm nada a ver com filosofia, religião ou psicologia, porque eles iriam lá?”

Muitos estudantes falaram para o vice-reitor, “Nós gostamos disso. Nunca soubemos que filosofia, religião, psicologia pudesse ser tão interessante, tão intrigante; senão teríamos nos juntado a eles. Pensávamos que essas matérias fossem desinteressantes; que só tipos pedantes aderiam a elas. Nunca vimos pessoas de conteúdo ligada a essas matérias. Mas esse homem fez as matérias parecerem tão significantes que mesmo se formos reprovados em nossas próprias matérias, isso não importa. O que estamos fazendo está tão correto em si mesmo, e estamos tão certos disso, que a questão de mudar não existe”.

Contra reconhecimento, contra aceitação, contra diplomas... mas finalmente tive que deixar a universidade, não por causa das ameaças deles, mas porque percebi que se milhares de estudantes podem ser auxiliados por mim, isso é um desperdício. Posso ajudar milhões de pessoas pelo mundo afora. Porque deveria permanecer ligado a uma pequena universidade? O mundo inteiro pode se tornar minha universidade.

E vocês podem ver: Tenho sido condenado.

Esse foi o único reconhecimento que recebi.

Fui mal interpretado de todas as maneiras. Tudo que pode ser dito contra um homem foi dito contra mim; tudo que pode ser feito contra um homem foi feito contra mim. Vocês acham que isso é reconhecimento? Mas amo meu trabalho. Amo-o tanto que não o chamo de trabalho; simplesmente o chamo de minha alegria.

E todos que eram de algum modo mais antigos que eu, bem reconhecidos, me disseram, “O que você está fazendo não lhe dará nenhuma respeitabilidade no mundo”.
Mas eu disse, “Nunca pedi por isso, e não sei o que faria com a respeitabilidade. Não posso comê-la, não posso bebê-la”.

Aprendam uma coisa básica: Façam o que quiserem, amem o fazer, e nunca esperem por reconhecimento. Isso é mendigar. Porque deveríamos pedir por reconhecimento? Porque deveríamos ansiar por aceitação?

Olhe bem fundo em si mesmo. Talvez você não goste do que está fazendo, talvez esteja com medo de estar na trilha errada. A aceitação lhe ajudará a sentir que você está certo. Reconhecimento lhe fará sentir que você está indo na direção certa.

O problema é de seus próprios sentimentos íntimos; isso não tem nada a ver com o mundo exterior. E porque depender dos outros? Todas essas coisas dependem dos outros – você mesmo está se tornando dependente.

Não aceitarei nenhum prêmio Nobel. Toda essa condenação de todas as nações do mundo, de todas as religiões, é mais valiosa para mim. Aceitar o prêmio Nobel significa que estou me tornando dependente, agora não terei mais orgulho de mim e sim, orgulho do prêmio Nobel. Agora mesmo só posso ter orgulho de mim mesmo; não há nada mais de que possa me orgulhar.

Dessa maneira você se torna um individuo. E ser um individuo vivendo em total liberdade, sobre seus próprios pés, bebendo de suas próprias fontes, é o que faz um homem realmente centrado, enraizado. Esse é o início de seu florescimento definitivo.

Esses pessoas ditas reconhecidas, pessoas honradas, estão repletas de lixo e de nada mais. Mas estão cheias do lixo que a sociedade deseja para eles... e a sociedade os compensa dando-lhes recompensas.

Qualquer pessoa que possua algum senso de sua própria individualidade vive de seu próprio amor, de seu próprio trabalho, sem se importar no que os outros pensam disso. Quanto mais valioso for seu trabalho, menor a possibilidade de obter qualquer respeitabilidade por isso. E se seu trabalho for genial, então você não verá nenhum respeito em sua vida. Você será condenado em sua vida... assim, após dois ou três séculos, suas estátuas serão feitas, seus livros serão respeitados – porque leva quase dois ou três séculos para a humanidade reconhecer a inteligência que um gênio possui hoje. O intervalo é vasto.

Para ser respeitado por idiotas você tem que se comportar de acordo com o costume deles, de acordo com as expectativas deles. Para ser respeitado por essa humanidade enferma você precisa ser mais doente do que eles. Assim, eles lhe respeitarão. Mas o que você irá ganhar com isso? Você irá perder sua alma e não ganhará nada.



Osho, Extraído de: Beyond Psychology

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